Confluências –
Foi galardoado com o Prémio de Tradução Científica e Técnica. Esperava
receber este Prémio?
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Delfim Leão
- A atribuição deste prémio foi, para mim, uma
total surpresa, que começou, de resto, quando a Gulbenkian me contactou,
solicitando que facultasse o original grego, uma vez que a Constituição
tinha sido uma das obras seleccionadas para concurso. Por conseguinte,
o facto de todo o processo me ter sido alheio – já que não fiz, pessoalmente,
quaisquer diligências no sentido de apresentar uma candidatura – tornou
o resultado mais gratificante.
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Confluências
- Como surgiu a tradução desta obra? |
Delfim Leão
- A tradução desta obra surgiu por convite da
Professora Doutora Maria Helena da Rocha Pereira (minha orientadora no
Doutoramento e com quem tenho a honra de trabalhar há bastantes anos),
que me questionou acerca da minha disponibilidade para desenvolver este
projecto para a Gulbenkian, dado que tenho vindo a interessar-me de forma
crescente pelas questões de teorização política entre os Gregos.
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Confluências
- Quanto tempo demorou a traduzi-la?
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Delfim Leão
- A tarefa viria a ocupar-me durante mais de um ano, não porque
o original fosse extenso, mas por causa da própria complexidade que envolve
a sua interpretação. Eu já conhecia bem esta obra, uma vez que a usara
frequentemente no trabalho de investigação e, por isso, a primeira etapa
de abordagem ao texto já estava concluída. No entanto, uma coisa é traduzir
passos curtos; outra é harmonizar uma tradução completa.
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Confluências
- Que método(s) adoptou para a sua tradução?
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Delfim Leão
- Entre os instrumentos fundamentais que me auxiliaram encontram-se
os melhores (e por vezes bem extensos) comentários críticos ao original,
determinantes no trabalho hermenêutico. Não basta saber grego e entender
o original; é imprescindível aproximarmo-nos o mais possível das ideias
do autor, de forma a procurar garantir uma versão que seja simultaneamente
fiel ao original e escorreita em português.
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Confluências
- Que problemas, ao nível da tradução, lhe levantou
esta obra? |
Delfim Leão
- Um dos primeiros problemas dizia respeito à necessidade de verter
para português termos que não existiam no nosso idioma. Não me refiro
apenas a nomes próprios, já que neste caso a solução é menos complexa,
embora não esteja isenta de escolhos; as dificuldades maiores surgem na
altura de traduzir conceitos ou palavras-chave com um significado técnico
e usadas, não raras vezes, com uma recorrência que é incomportável num
texto em português. Em casos como estes, o tradutor tem de optar entre
o uso de paráfrases, de sinónimos, ou entre a premência de introduzir
um vocábulo novo. Ora a decisão entre estas várias hipóteses nunca é fácil…
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Confluências
- Considera que as traduções
das obras clássicas devem ser edições bilingues, isto é, devem ser acompanhadas
do original?
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Delfim Leão
- A opção por uma edição bilingue depende da natureza do original
e do público-alvo. À partida, uma edição bilingue implica pelo menos uma
duplicação dos custos (sem contar com os direitos de autor – neste caso,
não os de Aristóteles, obviamente, mas os do responsável pela edição crítica
usada) e o editor, regra geral, não está disponível para assumir mais
encargos. Por outro lado, o público que se interessaria por um original
em grego antigo é reduzido e poderá consultar edições feitas no estrangeiro,
pelo que a edição bilingue se torna pouco atractiva. No entanto, a situação
poderia inverter-se; dou apenas o exemplo de Itália, onde existem inúmeras
traduções dos clássicos e continuam a fazer-se edições bilingues, com
custos controlados, que são verdadeiras campeãs de vendas. Em Portugal,
estamos muito longe deste cenário. Por outro lado, há casos em que a opção
bilingue é praticamente obrigatória, como acontece quando se traduz (e
muitas vezes se edita) pela primeira vez documentos originais e desconhecidos
mesmo dos especialistas; é o que acontece, por exemplo, com a tradução
de textos medievais e renascentistas.
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Confluências
- Quando escolhe, ou aceita propostas de textos para traduzir, selecciona
ou aceita apenas os que se encontram no domínio da sua especialidade?
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Delfim Leão
- Há fases diferentes no processo de amadurecimento do trabalho
de tradutor. Quando se começa, ninguém é especialista, pelo que acabamos
por desenvolver os projectos de que outras pessoas nos incumbem, regra
geral colegas de trabalho mais experientes, que até se disponibilizam
para a tarefa de supervisão. Contudo, à medida que se vai tomando consciência
da própria responsabilidade da tradução, torna-se fundamental optar apenas
por matérias nas quais vamos aprofundando o conhecimento e onde, por esse
motivo, o nosso contributo pode ser mais pertinente.
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Confluências
- Quando traduz, usa metodologias diferentes segundo o(s) público(s) a
quem se destinam os textos traduzidos, nomeadamente os especialistas,
os estudantes ou o público em geral?
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Delfim Leão
- Sem dúvida; não apenas na tradução, mas também nas introduções
e notas que geralmente acompanham a versão portuguesa de autores gregos
e latinos. Em termos de exigência e seriedade, há que partir sempre do
princípio de que o nosso trabalho irá ser avaliado por outros especialistas.
No entanto, na versão final, a tradução tem de ir ao encontro do leitor
que se pretende atingir. Uma colectânea de textos para estudantes, por
exemplo, pressupõe uma variação de estilo maior e, por vezes, a simples
transliteração de termos originais, que definem conceitos ou realidades
a discutir no seu contexto de produção. Um especialista aprecia, regra
geral, notas mais generosas que ultrapassem o simples patamar da alta
divulgação. Porém, se a obra se destina ao público em geral e se o editor
até optou por eliminar as notas explicativas, a tradução deverá fornecer
já, de alguma forma, a chave interpretativa que vai orientar um leitor
menos familiarizado com o universo em questão.
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Confluências
- Qual a sua opinião sobre as traduções que se fazem em Portugal, na sua
área de especialização?
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Delfim Leão
- Há, em termos gerais, dois grandes tipos de traduções dos clássicos:
as que são feitas a partir do original e as que derivam de traduções existentes
já noutras línguas. Este segundo processo não pode, por razões evidentes,
ser considerado cientificamente sério, o que não implica necessariamente
uma desconsideração objectiva do autor da tradução, que até pode ser um
bom profissional; não pode é responder pela exactidão do resultado final,
se está a traduzir já em segunda ou terceira mão. Infelizmente, esta opção
acaba por ser frequente, com resultados muitas vezes desastrosos, que
redundam em verdadeiros atentados à memória do autor.
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Confluências
- Como surgiu a tradução no seu percurso profissional?
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Delfim Leão
- Antes de mais, por ser uma actividade obrigatória na minha formação
académica, quer para o aprofundamento do domínio do grego e do latim,
quer ainda para desenvolver projectos de investigação científica. Ao preparar
a tese de Mestrado, aprendi imenso com o meu orientador de então (Professor
Doutor Walter de Medeiros), mas só depois comecei a traduzir de forma
sistemática. Primeiro, em parceria com colegas mais experientes (como
aconteceu na versão do livro 6 das Histórias de Heródoto), até
ir ganhando autonomia crescente.
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Confluências
- Curiosamente, os prémios de tradução científica e
técnica costumam ser atribuídos a especialistas de diferentes áreas, que
têm a tradução como segunda actividade. Concorda que só este tipo de especialistas
é bom tradutor nas áreas técnicas e científicas?
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Delfim Leão
- Penso que não, se bem que essa realidade que referiu seja até
compreensível. Um tradutor de profissão faz necessariamente trabalhos
de natureza muito variada e o que essa experiência lhe faculta em termos
de maleabilidade, acaba por retirar-lho no respeitante à especialização
em áreas específicas. Uma pessoa que viva da tradução pode fazer, obviamente,
uma versão de excelência de uma obra técnica, mas precisará sempre do
apoio de um especialista da área. No caso dos clássicos, o desconhecimento
da língua original é o primeiro (e incontornável) óbice.
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Confluências -
Que pontos de contacto acha que existem entre a tradução da sua
área de especialização (a Cultura Clássica) e a tradução de outras áreas
mais técnicas?
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Delfim Leão
- Creio que os problemas com que um tradutor se debate são, em
termos gerais, sempre os mesmos: a necessidade de conhecer bem a língua
original e aquela para a qual se propõe traduzir; a obrigação de verter
fielmente uma obra, mas sem ceder tanto ao sentido literal que torne a
tradução pesada e hermética; a consciência do peso técnico da terminologia
exacta, que não se compadece com opções aproximadas, que imediatamente
denunciam a ligeireza de análise. Por outro lado, seria muito difícil
a alguém viver unicamente da tradução técnica, pelo que o arrimo de uma
outra actividade principal se torna quase obrigatório.
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Confluências -
Que formação deve ter um tradutor que se queira dedicar à tradução da
Cultura Clássica?
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Delfim Leão
- Antes de mais, tem de dominar as línguas clássicas; de outra
forma e na sequência do que atrás se disse, estará apenas a iludir-se
a si mesmo e – o que é bem pior! - aos leitores; deve possuir ainda um
conhecimento consistente do contexto de produção das obras que se propõe
abordar.
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Confluências -
Inversamente, pensa que os especialistas das diferentes áreas, para serem
tradutores, devem ter alguma formação em Tradução?
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Delfim Leão
- Colocando a questão ao contrário, é também evidente que um tradutor
deve ter alguma formação em Tradução e nas técnicas e múltiplos problemas
que acompanham essa actividade.
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Confluências -
Quando lê uma tradução, o que é para si mais importante: a precisão terminológica,
a correcção linguística ou outros aspectos?
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Delfim Leão
- Tudo é importante numa tradução rigorosa. Uma pessoa que escreve
bem, mas tropeça na precisão terminológica, deixa logo um travo de insatisfação
no leitor. Contudo, talvez a essência da tradução se possa resumir no
esforço de respeito pela elevação do original – e isso implica compreender
que nem todos os originais têm igual elevação… |
Confluências -
Considera que em Portugal há uma política para a tradução especializada?
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Delfim Leão
- Diria apenas que há alguns esforços para promover a tradução
especializada, quase sempre em consequência de necessidades científicas
ou académicas, circunstância que ajuda a justificar a origem profissional
dos responsáveis por essa tradução especializada. No entanto, este tipo
de tradução é, regra geral, contrário à massificação, com consequências
evidentes no sucesso editorial, pelo que necessitaríamos mesmo de uma
política de apoio à tradução especializada, que neste momento seria
quase inexistente, se não pudéssemos contar com a Gulbenkian, a Imprensa
Nacional, alguns incentivos da Fundação para a Ciência e a Tecnologia
e mais uns quantos exemplos louváveis, mas isolados
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Confluências -
Um comentário final ao seu trabalho e ao Prémio que
recebeu.
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Delfim Leão
- Se há aspecto que este Prémio veio realçar na forma de conduzir
o meu trabalho, é o reforço da necessidade de encará-lo com rigor e com
seriedade, tendo sempre por fim último a preocupação com a excelência
– e não a miragem fugidia dos Prémios.
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Confluências -
Muito obrigada pela sua colaboração.
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| * A
entrevista foi realizada por Manuela Paiva, Directora-Adjunta da Confluências:
Revista de Tradução Científica e Técnica.
Endereço para correspondência: manuela.paiva@confluencias.net. |
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