N.º 2
MAIO 2005

NOTAS E APONTAMENTOS
ÍNDICE
 
   


  A Tradução de Textos – dificuldades e problemas

Lina Gameiro Lopes
Tradutora
 
 

Qualquer reflexão sobre tradução, na minha opinião, deverá partir sempre do princípio de que ela é absolutamente necessária, pois permite ao leitor ler uma obra literária, poética, científica, escrita num idioma que não é o seu, como se do seu se tratasse, produzindo nele quase as mesmas emoções e conhecimento que produz no leitor de obras escritas na língua de partida.

E assim se compreende que, apesar das dificuldades, dúvidas e riscos que se correm em desfigurar textos originais, mesmo com todas as críticas feitas a traduções e tradutores ao longo do tempo, a tradução existiu desde sempre e continuará a existir, como meio de divulgação e transmissão de conhecimento, tornando-o acessível, não apenas a alguns, mas a todos os humanos.

Podemos, então, perguntar o que é a tradução? Muitos estudiosos já responderam a esta pergunta. No meu entender a tradução é, essencialmente, a transposição de uma mensagem escrita numa determinada língua (língua de partida) para uma outra língua ou línguas (língua(s) de chegada), obedecendo a determinada regras linguísticas e extralinguísticas, que podem ser diferentes dependendo de cada época e da sensibilidade e conhecimento dos tradutores. E é este complexo processo de transposição de significados entre sistemas linguísticos, representando realidades diferentes e com especificidades muito próprias, que levanta os mais variados problemas, de natureza cultural, linguística, semântica, estilística, de fidelidade ao texto, entre outros, criando, por vezes, a ideia, ainda que errada, de que a tradução é impossível.

E estes problemas que a tradução levanta, surgem tanto em textos de natureza literária, que colocam o tradutor perante estruturas abertas com múltiplos significados, permitindo várias interpretações, coerentes entre si, como em textos de natureza técnica ou científica, apesar de serem mais objectivos e reduzirem o grau de subjectividade e interpretação.

Recentemente estive nas Jornadas de Tradução e Terminologia em Biologia/Imunologia na Universidade de Aveiro, onde foi bastante visível como em textos de natureza científica a forma como devem ser traduzidos determinados termos pode originar tanto desentendimento entre tradutores e investigadores. Por exemplo, como se deve traduzir as células natural killer ou células T helper. Como traduzir natural killer ou helper? Ou como pôr em bom português os termos self e not self, imbuídos de um significado muito próprio dentro do seu contexto, sem perder esse mesmo significado e sem desvirtuar a língua?

Perante estas questões, como deve actuar o tradutor, sabendo ele que tem como missão traduzir e que os cientistas e investigadores – leitores habituais de textos de natureza científica – utilizam normalmente os termos e siglas na língua de origem (inglês)?

Estas questões remetem-nos para uma outra reflexão sobre a pouca investigação em terminologias e, consequentemente, a escassa regulamentação de termos, para que todos possam, de uma forma consensual, utilizar os mesmos. É necessário dar continuidade à criação de mais glossários com uma estrutura mais completa, onde surjam não apenas os termos e seus correspondentes, mas os conceitos e tradução de pequenos textos, para um melhor entendimento e utilização de quem não é especialista das áreas.

Reportam-nos, também, para a falta de tradutores especializados nas mais variadas áreas técnicas, com conhecimentos profundos das suas especializações, dominando os conceitos para que as traduções sejam feitas com maior rigor e qualidade.

As especializações deveriam começar nas Universidades, ponto de partida para uma formação mais adequada às necessidades deste trabalho, carente de tanta dedicação, estudo e investigação – o que lamentavelmente pouco acontece. Os cursos de tradução, de uma forma geral, teimam em permanecer demasiado generalistas, ignorando que a falta de especialização pode ser, também, um factor de dificuldade de tradução.

Mas quando falamos de dificuldades e problemas, não podemos deixar de fazer referência, ainda que de uma forma muito breve, aos chamados procedimentos técnicos de tradução desenvolvidos por estudiosos da teoria da tradução, como Vinay & Darbelnet, Newmark e, mais recentemente, Heloisa Barbosa, Aubert, Frederico. Estes autores apresentam algumas soluções – a utilização de estrangeirismos, com a explicação do seu significado, que tanto pode ser em rodapé, como diluída no texto, a equivalência, a adaptação, o decalque, entre outros – a que podemos recorrer quando confrontados com lacunas culturais, expressões idiomáticas, palavras cujos vocábulos ou conceitos são desconhecidos na língua de chegada. Estes e outros procedimentos técnicos de tradução, embora úteis, não são, no entanto, suficientes para resolver todos os problemas.

A tradução, arte ou magia, para uns, ofício, para outros, apesar das muitas limitações e insuficiências próprias do processo de traduzir, tem, porém, um facto que parece inalterável: continuará a ser um grande desafio para os que a ela se dedicam, tanto ao estudo da teoria como à prática, com o objectivo de a tornar cada vez mais rigorosa e consciente.