N.º 2
MAIO 2005

ARTIGOS E COMUNICAÇÕES
Terminologia e Lexicologia
ÍNDICE
 
   


  Por Uma Ecolexicografia
   
Manoel Soares de SARMENTO
Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, Brasil

Resumo: Esta é uma proposta de criação de dois novos campos da Lingüística Aplicada e, mais especificamente, da Ecolingüística, a saber: a Ecolexicologia e a Ecolexicografia. Este artigo concentra-se em delinear os contornos ontológicos, epistemológicos e metodológicos respeitantes à Ecolexicografia.

Palavras-Chave: Estudos lexicais e terminológicos; Ecolingüística; Ecolexicologia; Ecolexicografia.

Abstract: This paper aims at presenting two new fields of Applied Linguistics, and specifically of Ecolinguistics, namely, Ecolexicology and Ecolexicography. It proposes ontological, epistemological and methodological bases to create Ecolexicography.

Keywords: Lexical and terminological studies; Ecolinguistics; Ecolexicology; Ecolexicography.

 


E
ste artigo procura fornecer alguns dados de uma pesquisa que vem sendo realizada na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, Campus de Jequié, assunto também de um estágio de Pós-Doutorado realizado no Centro de Estudos Lexicais e Terminológicos - LEXTERM, do Departamento de Lingüística, Línguas Clássicas e Vernácula, da Universidade de Brasília. O intuito básico é apresentar uma subárea da Ecolingüística, a saber, a ECOLEXICOGRAFIA, proposta primeiramente à Universidade de Graz, na Áustria, no ano de 2000 (Cf. Sarmento 2000) e, posteriormente, dada a conhecer no livro Colourful Green Ideas (2002), da Peter Lang Verlag, Berna, Suíça, bem como na sociedade Terralingua, no seu boletim Langscape, número 20, aqui já bem mais aumentado. Seguindo, foi apresentada — juntamente com a proposta de criação de uma subárea congênere, a ECOLEXICOLOGIA — ao Centro acima citado.  A partir dos morfes formadores destas subáreas, depreende-se que estou atuando no campo das inter-relações entre Lingüística (léxico, «teorização sobre» e «elaborar a obra» , ao qual se juntam a pragmática e a semântica) e Ecologia (a metáfora do ecossistema).

Revelo orgulho, alegria e compromisso ao anunciar a proposta de criação desses dois subcampos da Ecolingüística. Orgulho, alegria e compromisso porque nossa ciência tem de se ver às voltas seriamente, na realização de suas discussões e tarefas, com as palavras que usamos, a respeito dos efeitos que elas causam, quais as suas potencialidades para criar, enfraquecer, fortalecer, manter e destruir:

. o sistema interno da língua;

. a rede ecológica do ser humano, no que tange ao biológico, ao social, ao psicológico etc.;

. a rede ecológica dos outros organismos; 

. e daí a uma rede mais ampla, a saber, do meio ambiente e planetária.

Os novos subcampos propostos foram previstos em um texto que enviei à Universidade de Graz, como já escrevi, durante o Simpósio Österreichische Linguistiktagung 2000: 30 Jahre Sprache und Ökologie. Nos abstracts apresentados ao Simpósio,  trataram-se  as seguintes ecopalavras: «ecológico», «ecologicamente», «Ecologia», «Ecolingüística», «ecossistema», «eco-alfabetização», «ecossemântica», «ecogrupo», «não-ecológica», e dentre elas apareceram «ecolexicológico» e «Ecolexicografia», propostas para tratarem com palavras e suas relações com o meio ambiente, na acepção de «meditar sobre» e «gerar tecnologia para», que correspondem enquanto parentesco epistemológico aos estudos lexicais e terminológicos, desenvolvidos pela Lexicologia e pela Terminologia, bem como pela Lexicografia, pela Terminografia, pela Terminótica, entre outras. (1) Neste artigo concentrar-me-ei mais detidamente na Ecolexicografia.

Apresentando algumas asserções que venho propondo, diria o seguinte:

1. Em primeiro lugar, parece-me que a Ecolexicografia tem de ser trabalhada a partir de uma perspectiva mais ampla que envolve uma Nova Mentalidade por parte de nós falantes do português e de outras línguas. Este «mais ampla» configura-se como uma tomada de posição a fim de realizar uma reviravolta nas nossas concepções quanto ao nosso lugar enquanto indivíduos e espécie pertencentes ao Planeta Terra, considerando a fundamentabilidade de tudo, à luz da plataforma da Ecologia Profunda, do ecofilósofo norueguês, Arne Naess (2). O pensamento dele pode ser compreendido como «relacional, não voltado apenas ao humano» . Ou seja, uma Ecologia Rasa que trata apenas com coleta de dados, descrição e sua interpretação é útil — mas não suficiente, se não houver uma transformação íntima efetuada por nós humanos no campo pessoal, social, acadêmico, político-financeiro etc. Envolve vivenciarmos uma tentativa de superar a separatividade que grassa na nossa cultura e que atua profundamente nas nossas atitudes internas e externas. Disso é exemplo um paradigma reducionista, mecanicista. Claro que ajuda em certos segmentos dos lidares humanos, mas tem-se mostrado que vem causando uma série de prejuízos, hierarquias perniciosas, domínios de uns sobre os outros de forma danosa, para não falar de um sentimento de esfacelamento, de se perceber e se sentir como «separado de» . Esta é a razão pela qual advogo uma perspectiva integrativa, relacional, traduzível, por exemplo, nas concepções sistêmica, ecológica (e ecologizante) e holística. As concepções sistêmica e ecológica provêem um pano de fundo científico para se realizar essa mudança; a holística provê uma posição de cunho filosófico; e a concepção ecológica tradicional resgata aquilo que o Conhecimento Ecológico Tradicional vem cotidianamente realizando. Venho propondo um «ser-um-com» , «ser-o», mais do que «ser-parte-de».

2.  Em segundo lugar, postulo o fato de que a filogenia da nossa espécie aponta para o domínio que adquirimos com o fogo, com a roda, com os artefatos, com a linguagem e com o pensamento e daí gerarmos dois caminhos: um para a sobrevivência e outro para a extinção. Este último é entendido em termos das hierarquias e preconceitos que erigimos ­ das quais o patriarcado, a submissão de um povo por outro, a extinção de espécie causada por nós, a exploração desenfreada das chamadas «riquezas/recursos naturais», em suma, uma dilapidação do Planeta, é testemunha. Mas mais ainda: há uma constante dilapidação da chamada «natureza humana», sendo que a espécie Homo sapiens sapiens, que é também Homo habilis e Homo faber, Homo loquens se torna, em muitos casos, Homo demens. Estes são ensinamentos a mim dados pela Ecologia Social, de Murray Bookchin, bem como pelas fascinantes pesquisas paleoantropológicas da família Leakey. (3

3. Em terceiro lugar, percebemos que o próprio sistema lingüístico, quando pensado em um sistema autocontido, de per se, em muitos casos, sofre com a quebra de tais «elos integrativos» internos e reflete isso para o Planeta como um todo. Os exemplos de discurso que maximizam ações não-ecológicas são prova disso. A vertente dos estudos lingüísticos chamada «formalista» , útil como possa ser, tem enfatizado a língua como um fenômeno autocontido, de per se, diferente da perspectiva funcionalista, visto que enxergam a língua como uma semiose virtual que se atualiza numa semiose realizada num dado contexto de situação.

Mas, o que desencadeia o pensamento de postular uma Ecolexicografia?

A bem dizer, o surgimento da Ecolingüística. Tomem-se alguns dados:

A Ecolingüística é uma subárea da Lingüística, especificamente da Lingüística Aplicada, que trata com as inter-relações entre língua e meio ambiente. Por entender que:

«Ecolinguistics is a new branch of linguistics that investigates the role of language in the development and possible solution of ecological and environmental problems. [and] for this reason, some ecolinguists use the concept of the eco-system metaphorically to refer to the language world systems that they analyse with the help of concepts transferred from biological ecology»,

como nos lembra Roslyn Frank, do Instituto de Estudos Bascos. (4)

A Ecolingüística deve ter sido motivada por diversos discursos governamentais, religiosos, empresariais, burocráticos, filosóficos, científicos, do dia-a-dia,  que  incessantemente utilizam de informações que maximizam a destruição, a opressão,  falta de felicidade, extinção de espécies, extinção de línguas,  poluição, corrupção, empobrecimento. Um dos casos que este artigo sustenta — e a pesquisa como um todo — é que  corremos riscos ao dizermos a respeito da Língua Portuguesa: «falar errado», «vícios de linguagem»,  «falante nativo não sabe a sua língua»,  «a língua mais difícil do Mundo» e tantas outras hierarquias e dominações e separações, tantos outros preconceitos, erros lógicos.

Mas talvez essa subárea da nossa ciência tenha sido educada e nutrida  por  Copérnico, quando ele vê que o nosso Lar é não mais do que um pequeno — maravilhoso — Mundo em um dos cantos da nossa gloriosa Galáxia, a Via Láctea. E, como tal, algo tem de ser feito para preservá-lo. Ou quando Descartes propõe uma nítida separação entre corpo e mente — e isso é uma batalha que os ecolingüistas encaram a todos os momentos, visto que essa filosofia profundamente evoca a possibilidade de negar as realizações mais caras do campo, a saber: a tentativa de pensar a língua humana como um fenômeno que se inter-relaciona com o meio ambiente.  Essa negação pode ser pensada como uma disjunção entre seres humanos, mente, pensamento, língua, cultura e sociedade, corpo e o meio ambiente — e isso pode ser exemplificado pelo fato de pessoas ainda permanecerem insistindo em uma Ciência «neutra», «racional», «lógica», «objetiva», «matemática», como se aquele/aquela que gera tal conhecimento não fosse humano/humana em seu sentido mais profundo. Talvez tenhamos de nos lembrar de Charles Darwin e de São Francisco de Assis, quando visualizam nos pássaros de céu, no gado que está no campo, nas florestas cobertas de verde e no ar que  respiramos, nossos irmãos e nossas irmãs.   E temos ainda muito trabalho a desenvolver ao entendermos os problemas criados pelo especiecismo, crescimentismo, racismo, antropocentrismo etc., disseminados no Mundo por uma cultura negativa do —ismo, como Michael Halliday advertiu (Cf. Fill 1998).

Surgimento Localizado da Ecolingüística


O
s pontos escritos anteriormente podem ser entendidos como uma tentativa de delinear um possível contorno para as idéias e eventos que devem existir previamente, a fim de trazer à luz a Ecolingüística. Contudo, em termos de localização no tempo, sua origem pode ser traçada na década de 70 quando Einar  Haugen (Professor Emérito de Estudos Escandinavos) publica A Ecologia da Língua, na Stanford University Press, propondo tratá-la como um fenômeno ecológico, a saber, tratando-a como interações entre qualquer língua e o meio ambiente. Mais tarde, em uma conferência em Tessalônica, Grécia,  Michael Halliday admoestou os/as lingüistas a não ignorarem o papel de seu objeto de estudo e o crescimento de problemas ambientais, como Fill  mais uma vez enfatiza no seu texto  Ecolinguistics — State of the Art 1998. Mas  não apenas no âmbito da Ciência, da Filosofia etc. se questionam essas coisas, o nosso dia-a-dia está cheio de tais indagações.

Porém, uma questão historiográfica impõe-se para discussão. Autores há que remetem o surgimento da Ecolingüística para muito antes da década de 70 com Haugen. Remete-se, por exemplo, a Sapir e Whorf, ou a John Trim, em 1959, mas muito antes ainda. (5)


Alguns Alvos de Investigação da Ecolingüística


Alguns alvos de investigação da Ecolingüística são:

. Tratar a língua em face aos sistemas biológicos diversos e similares;

. Realizar a crítica da língua, tanto em termos do par, língua e meio ambiente, bem como de uma crítica ao sistema interno da língua. Assim, o trabalho envolveria os estratos comumente discutidos da língua humana: o léxico, a morfologia, a sintaxe, a semântica etc.;

. Ensinar eco-educação, ou seja: propiciar uma educação que se volte às questões ecológicas;

. Realizar teorização do campo.

Naturalmente o escopo desse excitante campo de estudo engloba ainda:

. os problemas respeitantes às línguas em situação de perigo no Mundo;

. o problema crítico que envolve o/a último/a falante de uma língua;

. criação, uso, revitalização e morte de uma língua;

. a questão do preconceito lingüístico;

. a questão do imperialismo lingüístico;

. o planejamento lingüístico;

. elaboração de textos, glossários, etc. que tratem com o problema da língua e do meio ambiente;

. as questões que envolvem língua e paz;

. as questões sobre Ecolingüística e ensino;

. a questão da ecologização de línguas e sua contribuição para as Mentalidades;

. difusão e aplicação da Declaração dos Direitos Lingüísticos (6).

De que Trata a Ecolexicografia, Afinal?

Neste momento, diria que a Ecolexicografia tanto pode ser uma ciência quanto uma técnica. No primeiro caso, ela cuida de teorizar sobre a obra ecolexicográfica; no segundo, ela traça os contornos macroestruturais e microestruturais da obra ecolexicográfica e produz tais obras.

A Ecolexicografia não se confunde com a reflexão e o labor lexicográficos empreendidos até o presente momento. Não se confunde, mas também não pode  se afastar de tais reflexão e labor, visto que, como venho falando, não proponho uma cisão entre uma e outra. Proponho, sim, um alargamento dos estudos lexicais. E a proposta ganha corpo quando postulo as seguintes proposições:

PRIMEIRA PROPOSIÇÃO. Pensada em termos de dicionários, a Ecolexicografia não é dicionário de Ecologia, nem dicionário «comum» sobre fatos ecológicos. É uma reflexão e um labor que demandam a utopia sobre a qual venho falando. Relembrando:

UTOPIA PARA A SOBREVIVÊNCIA INDIVIDUAL E PLANETÁRIA.


E essa utopia torna-se clara ao propor a microestrutura do verbete ecolexicográfico, o qual não trata apenas com definição e abonação. O procedimento heurístico que norteia os verbetes ecolexicográficos é o seguinte:



    Figura 1. Microestrutura do verbete ecolexicográfico.

Nesta configuração a base da obra ecolexicográfica reside nos:

EFEITOS + RESULTADOS LÓGICOS, e isto remete-me à questão da SOBREVIVÊNCIA a que antes aludi, tema que vem me acompanhando desde 1994(7) .

Os EFEITOS compreendem:

. Criativo (EC)

. Mantenedor (EM)

. Fortalecedor (EF)

. Enfraquecedor (EE)

. Destrutivo (ED)

E os RESULTADOS LÓGICOS compreeendem, por exemplo, diversas palavras e expressões da Língua Portuguesa, sendo que a minha utopia é propor uma ecologização das «não-ecológicas». Vejam-se:

BINÁRIO DE OPOSTOS, do tipo «lógica formal», sim, não:

Ecológico e exemplos:

. Interconexão hemisférica

. Isoglossas

. Biodiversidade

. Individualidade

. Dialetos

. Aceitabilidade na língua

. Advocacia em defesa das línguas

. Filhos e filhas da Terra

. Rio de Heráclito

. Serenidade

. Paz

. Ser-um-com-o

. Tudo está ligado

Não-ecológico e exemplos:

. Ferrugem cósmica

. Falante nativo não fala bem a sua língua

. Quem são teus pais? («Quem são tuas mães?»)

. Americanos e estadunidenses

. Individualismo

. É negro e é...

. Animais

. Preconceito

. Relógio como metáfora de organismo

. Terra

. Universo

. Ambiente natural enquanto recurso

. Classismo

. Dualismo

. Apenas as pessoas educadas falam corretamente.

TERNÁRIO DE CONFLUÊNCIA, do tipo dialético:

Ecológico ou não-ecológico ao mesmo tempo, implicando o fato de que nem sempre a lógica de opostos é viável e requer-se uma lógica que engloba o «sim, o não e o talvez». Por exemplo, a palavra «lixo» não pode ser classificada como ecológica ou não-ecológica; apenas as ações que dela advém podem fazer uma classificação. 

GRADIENTE,  implica uma gradiência, uma escalaridade do tipo: «muitíssimo, muito, pouco, pouquíssmo, etc.»

Gradiência   +++ <-> - - -

DIALÓGICOS, implica uma conexão do tipo «piscar um olho e mexer nas estrelas», muito bem ilustrado nas pesquisas sobre condições atmosféricas da Teoria do Caos, ou pelos estudos de não-localidade da Física Quântica.

SEGUNDA PROPOSIÇÃO. De outro modo, Ecolexicografia não se confunde com Terminologia ou Terminografia. Aquela trabalha com  a noção de «língua comum», ou seja, «não linguagem de especialidade», mas guarda claro parentesco com algo a que venho chamando, a partir da influência sobre mim exercida pelo curso de Lexicografia e Terminografia, oferecido pela Prof.« Dr.» Enilde Faulstich, da Universidade de Brasília,  uma Ecoterminologia e  uma Ecoterminografia. Se se aceita o fato de que é possível haver uma ecometalinguagem (por exemplo, uma ecomorfologia, como postulada pela Escola de Estudos Ecolingüísticos de Odense (8), na Dinamarca e que eu próprio falo em termos de ecossílaba, ecotexto, ecoagente, ecofone, ecopalavra etc.) ou ainda algo do tipo «que pode ser encarado por uma Ecoterminologia», por exemplo: cogito ergo sum, da Filosofia, «ambientalismo profundo», na Ecologia, «análise crítica do discurso», na Lingüística, «ecofeminismo», em Política etc. e de que a «linguagem de especialidade» também pode ser encarada do ponto de vista da microestrutura antes aventada, então haveria um limite relativamente claro entre os estudos lexicais e terminológicos, de um lado, e entre os estudos ecolexicais e ecoterminológicos, de outro, mas com muitos pontos de contato. Um deles é a microestrutura do verbete.

TERCEIRA PROPOSIÇÃO. Outro ponto, sobre o qual já venho tocando, é a respeito dos significados que a base eco assumiu ao longo do texto. Não implica apenas o «lado positivo», mas toda a lógica que permeia as minhas propostas. Volto mais uma vez às lógicas atuantes e aos efeitos.  Assim, eco não tem o significado apenas positivo de «contribui para a sobrevivência individual e planetária». Eco, na verdade, é um termo neutro para tratar com as lógicas e os efeitos antes aduzidos.

QUARTA PROPOSIÇÃO. Ainda diria que  os dados de corpus com os quais a Ecolexicografia deve se ocupar têm de trazer implícito algo do tipo «efeitos eco», «sobrevivência». Se não selecionados a partir desse viés não podem ser observados, descritos e explicados ecolexicológica e ecolexicograficamente. Ou seja, há uma hipótese prévia a circunscrever o âmbito de ação das subáreas.

QUINTA PROPOSIÇÃO. A Ecolexicografia não abandona os estudos lexicográficos (para não dizer lexicológicos) empreendidos até agora: toma-os e alarga as suas fronteiras ao propor uma microestrutura que se constrói, além daquele tradicional, nas LÓGICAS e EFEITOS, sobre os quais falei anteriormente.

SEXTA PROPOSIÇÃO. A tarefa da Ecolexicografia não é apenas observar, descrever e explicar palavras e expressões  vistas a partir do viés eco, mas tomar posição sobre os efeitos e resultados lógicos que elas desempenham. Ou seja, estamos trabalhando não apenas com o significado de palavras e expressões, mas a questão dos seus usos, o que nos remete imediatamente ao campo da Pragmática. Em suma, esta subárea propende mais naturalmente ao campo semântico e pragmático do que ao morfossintático e fonológico. Ou seja, é o estrato lexical encarado em termos de significados, usos e efeitos.  E, se pensarmos que podemos contribuir com a discussão a respeito de ecologização de línguas humanas, ao nos situarmos claramente sobre os efeitos que a língua causa, então estamos no campo de dizer: «Isso é assim. Isso é assado. Faça. Não faça.»

Questões Formuladas pela Ecolexicografia


As seguintes questões são formuladas pela Lexicologia e pela Lexicografia:

. Qual o papel das palavras no nosso Mundo, bem como: Como uma palavra pode criar, manter ou destruir um Mundo?

Por extensão, as seguintes questões são cabíveis:

. De que modo podem contribuir a Lexicologia e a Lexicografia vigentes para delinear os entornos da Ecolexicologia e da Ecolexicografia?

. De igual modo as nossas inúmeras teorias lingüísticas.

. De igual modo, os outros conhecimentos intimamente ligados às duas áreas.

A partir do que seja uma «palavra» e uma «expressão», a Ecolexicologia se questionaria a respeito da possibilidade teórica e prática da existência de uma «ecopalavra» e de uma «eco-expressão» e também faria questões do tipo:

. Como pode uma palavra ecologizar uma língua e contribuir  para as Mentalidades?

. Qual o papel de uma ecopalavra no nosso Mundo e quais são as suas potencialidades para criar, manter, fortalecer, enfraquecer e destruir? E ainda:

. Uma ecopalavra pode vir a enfraquecer e destruir? Elas são sempre conduzentes à sobrevivência do nosso Mundo?

sendo que adviria daí outra pergunta:

. É possível um jogo textual do tipo «palavra — ecologizar», ou o termo verbal exige necessariamente uma «ecopalavra»?

Voltando-me às questões formuladas pela Ecolexicografia e pela Ecolexicologia, diria:

. Como alguém pode contribuir para promover palavras ecológicas?

. O que devem fazer os/as ecolexicólogos/as e ecolexicógrafos/as (e outros/as)  com aquelas palavras que desempenham um papel não-ecológico no nosso Mundo?

. Deve haver algum tipo de monitoramento de palavras? Ou seja,  as áreas devem apontar para uma Axiologia, uma tomada clara de posição frente àquilo que é «ecológico» ou «não-ecológico»? Quanto de normativo as áreas podem (devem) ser?


Resumo Metodológico: Paradigmas, Teorias, Métodos, Técnicas e Semióticas Respeitantes à Ecolexicografia


PARADIGMAS GERAIS (PG)

1. Concepção Dialógica, e daí a Concepção Integrativa (DI)

2. Concepção Política, e daí a Concepção Vitalizadora (para a Sobrevivência), que caminham lado a lado com a Concepção Educacional e com uma Concepção sobre as Mentalidades, e daí a Proposta de Ecologização da Língua Portuguesa (PVEM)

APORTES NO CONHECIMENTO HUMANO (ACH)

a)   Lingüísticos - Lingüística Geral, Ecolingüística, Estudos Lexicais e Terminológicos (LING)

b)      Ecológico - Ecologia Geral (ECO)

c)      Integrativos - Multirreferencialidade, Sistemas, Dialógica,  Holística (INTE)

d)      Filosófico - Identidade, Alteridade, Dialética, Dialógica (FILO)

e)      Político - Ecologia Social, Ecologia Profunda, Educação, Mentalidades (POLI)

f)       Conhecimento Tradicional (TRAD)

 

CLASSIFICADORES ECOLEXICOGRÁFICOS

1.      Obra ecolexicográfica (OELG)

2.      Palavras  e expressões

 

SEMIOTIZADORES ECOLEXICOGRÁFICOS (SELG)

a)      Definição (DEF)

b)      Usos (USO)

c)      Ações (AÇ)

d)      Estados

e)      Processos

f)       Fenômenos

g)      Sentimentos

h)      Sensações

i)       Efeitos (EFE)

 

CLASSIFICADORES LÓGICOS (CL)

a)      BINÁRIO DE OPOSTOS (LBO)

Ecológico (Ec)

Não-ecológico (N)

Ecologizante

Não-ecologizante

b)      TERNÁRIO DE CONFLUÊNCIA

Ecológico e não-ecológico (EcN)/Ecologizante e não-ecologizante:

- - -  Ação lingüisticamente-disparada (LD)

           - - -  Ação culturalmente-disparada (CD)

c)      GRADIENTE

Gradiência  +++ <-> ---

d)      DIALÓGICO

EFEITOS

. Criativo (EC)

. Mantenedor (EM)

. Fortalecedor (EF)

. Enfraquecedor (EE)

. Destrutivo (ED)

ESFERA DAS VIVÊNCIAS E AÇÕES HUMANAS (EVAH)

. Científica

. Filosófica

. Artística

. Espiritual

. Emocional

. Etc.

 


[1] Desejando-se examinar algumas pesquisas ecolingüísticas,  favor remeter ao seguinte endereço: <http://www-gewi.kfunigraz.ac.at/ed/project/ecoling/doc/ ecolinguistics-63.htm>. 

[2] O diretório do <http://www.yahoo.com> sobre ecologia profunda é extremamente útil. Confira-se: <http://dir.yahoo.com/Society_and_Culture/ Environment_and_Nature/Movements_and_Philosophies/ Deep_Ecology/>. 

[3] Uma bibliografia compreensiva da trajetória científica da família Leakey pode ser encontrada na Internet no site <http://www.lea.fluid.com/resources/ r2.jsp>. 

[4] <http://ibs. lgu.ac.uk/es/def-ecolinguistics.htm>. 

[5] Reporto-me neste momento a uma resenha feita por Kevin Hutchings, da University of Southern British Columbia, sobre o  livro Green Writing: Romanticism and Ecology, Nova Iorque, 2000, da autoria de James McKusick. Este é pioneiro nas discussões sobre as questões ecológicas elicitadas pelo movimento dos românticos. E o ponto interessante é que o autor cita como «precursors, progenitores, pensadores proto-ecológicos, ecologistas profundos» do movimento ecológico moderno os nomes do período romântico estadunidense e europeu. Cf. <http://www.rc.umd.edu/reviews/mckusick.html>. Porém, bem sabemos como o Romantismo, não só naqueles países, mas aqui no Brasil também prestou culto à chamada Natureza: o bucólico, o puro, o intocado, o selvagem, o inocente.... Continuando esta ligeira incursão histórica, vem do Monterey Institute of International Studies, na pessoa de Leo van Lier <http://maxkade.miis.edu/Faculty_Pages/lvanlier/ecolang.html> as seguintes informações:

«Early references to an ecological approach can be found in John Trim (1959) and Einar Haugen (1972). Haugen's list of concerns for an ecological linguistics is very broad, encompassing linguistic demography, language shift, dialectology, sociolinguistics, ethnolinguistics, and much more. Other researchers have continued this broad range of work (see Muhlhausler 1996 for an overview). Recent publications include Makkai (1993), Muhlhausler (1996), and Skutnabb-Kangas's monumental opus (2000). In most recent work there is a strong critical-theoretical and human rights perspective, focusing on language death, linguistic genocide, linguistic human/educational rights, and language diversity. Other work analyzes the way the environment is talked and written about in the media, politics and business (see further the University of Graz Ecolinguistics website [<http://www-gewi.kfunigraz.ac.at/ed/project/ecoling/>] and a number of contributions to Fill and Muhlhausler 2001).

A number of linguistic theories share family resemblances with ecological linguistics in several respects, including Harris's integrational linguistics, Halliday's systemic-functional grammar and social semiotics, and the work of William Hanks. In addition, work in situated cognition (Lave, Wenger), discursive psychology (Harre, Shotter, Kalaja), the psychology, philosophy and ecology of self (Neisser, Rosch, Tomasello, Gallagher and Shear).»

[6] Desejando-se consultar a Declaração, favor buscar o seguinte endereço eletrônico: <http://www.linguistic-declaration.org/index-gb.htm>. Neste último temos a Declaração em alemão, aragonês, asturiano, bielorusso, galego, japonês, nahuatl, russo, zapoteca, galês e inglês ­ não em português, o que me parece demandar por parte dos interessados e das interessadas em políticas lingüísticas, a sua tradução. Já  o site <http://www.jalt.org/global/26Dec.htm> apresenta-nos uma revisão sobre a Declaração e oferece-nos a possibilidade de lê-la em catalão, francês, inglês e espanhol. 

(7)Isso basicamente começou em uma conferência que proferi, em 1994, na abertura de um Curso de Mestrado em Enfermagem, concentração em Saúde Pública, no Departamento de Saúde da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, Campus de Jequié, em convênio com a UNIRIO. A conferência teve o título de Diálogo e Sobrevivência. Por esse tempo começo a levantar um corpus em Língua Portuguesa que me parece favorecer um fenômeno que chamo «ecologização ou desecologização da Língua Portuguesa». Hoje ele contém mais de 600 exemplos. 

(8) Bang, J. Chr., J. Døør et al. (eds.). Language and Ecology. Eco-Linguistics. Problems, Theories and Methods. Odense; Bang, Jørgen Chr. & Jørgen Døør. “Eco-Linguistics: a Framework”, in Aila 1993, 31-60; Døør, Jørgen & Jørgen Chr. Bang. “Language, Ecology and Truth - Dialogue and Dialectics” in Fill (ed.) 1996, 17-26.
 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Acot, P. História da Ecologia. Rio de Janeiro: Campus, 1998.

Bookchin, Murray. The Philosophy of Social Ecology. Montreal: Black Rose Books, 1990.

Faulstich, Enilde. Base Metodológica para Pesquisa em Socioterminologia. Brasília: UnB, 1985.

Fill, Alwin et al. Colourful Green Ideas. Bern: Peter Lang Verlag, 2002.

–. «Ecolinguistics - State of the Art 1998». In AAA - Arbeiten aus Anglistik und Amerikanistik, Band 23, Heft 1. Tübingen: Gunter Narr Verlag, 1998.

Lamberti,  Flávia Cristina Cruz. Da perpectiva tradicional à variação em terminologia. Dissertação de mestrado. Brasília: UnB.

Leakey, Charles. A evolução da humanidade.  Brasília: Editora da UnB.

Oliveira, Ana Maria Pinto Pires e Aparecida Negri Isquerdo (org). As ciências do léxico: lexicologia, Lexicografia, Terminologia. Campo Grande: UFMS, 2001;

Rocha, Sandra Lúcia Rodrigues. De uma abordagem funcionalista do léxico do grego antigo: para uma explicação lexicográfica. Dissertação de mestrado Brasília: UnB, 2000.

Sarmento, Manoel Soares. «Ecolexicography: words and expressions we should live by». In  Österreichische Linguistiktagung 2000: 30 Jahre Sprache und Ökologie. Graz: Graz Universität, 2000.

–. «Ecolexicography: ecological and unecological words and expressions». In Colourful Green Ideas, Fill, Alwin et al. Bern, Frankfurt, New York, London, Paris, Wien: Peter Lang Verlag, 2002.