N.º 2
MAIO 2004


ENTREVISTA




ÍNDICE
 
 
 

Paulo Ivo Cortez Teixeira


Paulo Ivo Cortez Teixeira nasceu na Damaia em 1965. É Licenciado em Física pela Universidade de Lisboa, Mestre em Física da Matéria Condensada e Ciência dos Materiais, também pela Universidade de Lisboa, e Doutor (PhD) em Física pela Universidade de Southampton, Reino Unido. É Professor Auxiliar na Faculdade de Engenharia da Universidade Católica Portuguesa, em Sintra, desde 2001. Tem algumas dezenas de trabalhos publicados, nomeadamente artigos em revistas especializadas. Desde 1987 que se dedica à tradução técnica e científica, tendo recebido o Prémio União Latina de Tradução Científica e Técnica em Português (2004), pela tradução da obra Mais Rápido que a Luz de João Magueijo, ex aequo com Delfim Ferreira Leão.

 
 
   
A propósito deste Prémio, a CONFLUÊNCIAS foi ouvir Paulo Ivo Teixeira. *
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ENTREVISTA A Paulo Ivo Cortez Teixeira
 
   

Confluências – Como surgiu a tradução desta obra?

Paulo Teixeira - A Gradiva pediu-mo e eu aceitei. Se bem me lembro, falaram-me no livro pela primeira vez em Abril ou Maio de 2002. Naturalmente, despertou-me curiosidade o facto de se tratar de um livro da autoria de um ex-colega meu: ambos nos licenciámos em Física na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, penso que com 2 anos de intervalo, pelo que eu já conhecia um pouco o João.

Confluências - Quanto tempo demorou a traduzi-la?.

Paulo Teixeira - Em Julho ou Agosto enviaram-me as primeiras provas (o livro ainda não tinha saído, nem sequer em inglês) e em Setembro a versão «definitiva» para começar a trabalhar. Terminei em princípios de Março de 2003.

Confluências - Foi galardoado com o Prémio de Tradução Científica e Técnica. Esperava receber este Prémio?

Paulo Teixeira - Bem, eu tinha recebido uma Menção Honrosa, em 2003, pela tradução de O Universo numa Casca de Noz, de Stephen Hawking, de modo que acalentava a esperança de desta vez conseguir o 1.º lugar...

Confluências - O autor desta obra, Mais Rápido que a Luz, é João Magueijo, que é português. Achou que havia alguma diferença na tradução de uma obra, escrita em inglês por alguém cuja língua materna é o português?

Paulo Teixeira - Não, não notei diferença alguma. O João escreve um inglês lindo. A grande vantagem foi, neste caso, o autor poder rever a tradução.

Confluências - Que outros problemas, ao nível da tradução, lhe levantou esta obra?

Paulo Teixeira - Não houve grandes problemas com linguagem técnica. Houve alguns (pequenos) problemas com o tom muito coloquial, roçando o vernacular, que o João emprega por vezes – e ele recomendou-me expressamente que gostaria que a tradução, mesmo das passagens porventura menos bem educadas, fosse o mais fiel possível. Foi uma experiência nova para mim, uma vez que os textos científicos não costumam ser tão coloridos.

Confluências - Quando escolhe, ou aceita, propostas de textos para traduzir, selecciona ou aceita apenas os que se encontram no domínio da sua especialidade?

Paulo Teixeira - Até à data, só me propuseram textos no domínio da Física, quando muito roçando a Matemática. Os textos que eu próprio selecciono são também neste domínio. Não me sinto capaz de traduzir noutras áreas.

Confluências - No âmbito da sua especialidade (a Física), a necessidade de encontrar termos equivalentes em língua portuguesa ainda é muito frequente?

Paulo Teixeira - Sim, ainda acontece com alguma frequência.

Confluências - Como resolve essas questões? Costuma recorrer a textos escritos noutras línguas ou noutras normas, nomeadamente na norma brasileira?

Paulo Teixeira - Normalmente pergunto a colegas, ou recorro a traduções mais antigas para ver como foram traduzidos tal e tal termos. Recorrer a traduções brasileiras é um pouco arriscado: muitas não são muito boas e, além disso, há algumas diferenças de terminologia técnica entre o Brasil e Portugal. Pode acontecer, por vezes que um determinado termo não tenha mesmo tradução corrente, isto é, que a comunidade científica e técnica utilize o termo estrangeiro (normalmente inglês). Nesses casos, parece-me preferível conservar o termo original em vez de introduzir um equivalente que seria artificial, no sentido de não reflectir a prática quotidiana da comunidade. São disto exemplo as designações dos quarks em Física das Partículas.

Confluências - Quando traduz, usa metodologias diferentes segundo o(s) público(s) a quem se destinam os textos traduzidos, nomeadamente os especialistas, os estudantes ou o público em geral?

Paulo Teixeira - Não, a minha metodologia tem sido sempre a mesma. Sou um tradutor completamente artesanal: tenho uns dicionários em casa, pego no livro, sento-me em frente ao computador e começo a trabalhar. Quando é preciso recorro a colegas, ocasionalmente à Internet.

Confluências - Qual a sua opinião sobre as traduções que se fazem em Portugal, na sua área de especialização?

Paulo Teixeira - Felizmente há cada vez mais. Quanto à qualidade, há-as boas e menos boas. Os editores saberão responder melhor do que eu se há ou não dificuldade em encontrar bons tradutores.

Confluências - Como surgiu a tradução no seu percurso profissional?

Paulo Teixeira - Quando ainda era estudante de licenciatura, um colega (Jorge Buescu, hoje professor de Matemática no Instituto Superior Técnico e bem conhecido nos círculos de divulgação científica) veio perguntar-me se queria fazer a tradução de um capítulo de um livro para a Gradiva. Estava-se em fins de 1986, e o livro chamava-se Planeta Terra: acompanhava a série de televisão do mesmo nome. Fiz o trabalho, a Gradiva gostou e confiou-me um livro inteiro: Superforça, de Paul Davies. Traduzi ainda mais um livro, a Simetria Perfeita, de Heinz Pagels, em colaboração com outro colega (Henrique Leitão, actualmente historiador das ciências e especialista em Pedro Nunes). Depois fui para o Reino Unido fazer o doutoramento e acabei por ficar dez anos fora. Quando regressei, entrei em contacto com a Gradiva e eles deram-me O Universo numa Casca de Noz, de Stephen Hawking, para traduzir. Seguiu-se o livro de João Magueijo, cuja história já contei. A tradução é, portanto, algo que faço em paralelo com a minha actividade principal de docente e investigador.

Confluências - Curiosamente, os prémios de tradução científica e técnica costumam ser atribuídos a especialistas de diferentes áreas que têm a tradução como segunda actividade. Concorda que só este tipo de especialistas são bons tradutores nas áreas técnicas e científicas?

Paulo Teixeira - Não necessariamente. Mas um não especialista precisaria de estar em contacto estreito com especialistas, para evitar erros óbvios – palavras cujo sentido num contexto técnico é diferente do que têm na linguagem de todos os dias, como por exemplo «tenacidade». Se uma tradução científica ou técnica for feita por um não especialista, será indispensável que a mesma seja revista por um especialista. O qual, em princípio, deveria ter direito a uma parte de qualquer prémio que a tradução porventura viesse a ganhar...

Confluências - Que formação deve ter um tradutor que se queira dedicar à tradução da Física? Inversamente, pensa que os especialistas das diferentes áreas, para serem tradutores, devem ter alguma formação em Tradução?

Paulo Teixeira - Um tradutor técnico deve ter formação técnica. Em particular, para traduzir Física tem de se saber Física, pelo menos ao nível de uma licenciatura com um forte conteúdo em Física. Evidentemente, mesmo um especialista nunca sabe tudo – por isso é importante conhecer o meio científico e tecnológico e saber a quem se pode recorrer em caso de dificuldades. Além disso, um tradutor tem de ter muito bons conhecimentos da língua (e da cultura) da qual está a traduzir, uma vez que (mesmo em textos científicos) há muitas subtilezas traiçoeiras e referências culturais que importa não deixar passar ao lado. Não falo já de conhecimentos da língua para a qual está a traduzir, uma vez que me parece óbvio que um tradutor tenha, igualmente, que os possuir. Sim, idealmente os especialistas em áreas técnicas deveriam também ter alguma formação em tradução (eu confesso que não tenho): em particular deveríamos estar mais bem informados acerca dos imensos recursos de apoio à tradução (informáticos, etc.) que actualmente existem.

Confluências - Quando lê uma tradução, o que é para si mais importante: a precisão terminológica, a correcção linguística ou outros aspectos?

Paulo Teixeira - Tudo isso. E também que não se note tratar-se de um texto traduzido: idealmente as frases devem fluir naturalmente, como se nunca tivessem existido noutra língua. Na minha opinião um texto deve ser correcto, tanto científica como linguisticamente, mas também deve ser agradável de ler. Idealmente o trabalho do tradutor deve ser invisível: para mim, um bom tradutor é aquele cuja presença passa despercebida.

Confluências - Considera que em Portugal há uma política para a tradução especializada?

Paulo Teixeira - Não sei. Mas também não sei se deveria haver uma. Claramente muitas editoras têm já as suas políticas de tradução especializada, o que é óptimo, porque respondem a necessidades reais. Não sei se se ganharia muito com uma política centralizada.

Confluências - Um comentário final ao seu trabalho e ao Prémio que recebeu.

Paulo Teixeira - Evidentemente gostei muito de ter recebido o prémio e de ver o meu trabalho reconhecido desta maneira. Considero que prémios deste tipo são sempre um incentivo.

Confluências - Muito obrigada pela sua colaboração.

* A entrevista foi realizada por Manuela Paiva, Directora-Adjunta da Confluências: Revista de Tradução Científica e Técnica. Endereço para correspondência: manuela.paiva@confluencias.net.