Confluências –
Como surgiu a tradução desta obra?
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Paulo Teixeira
- A Gradiva pediu-mo
e eu aceitei. Se bem me lembro, falaram-me no livro pela primeira vez
em Abril ou Maio de 2002. Naturalmente, despertou-me curiosidade o facto
de se tratar de um livro da autoria de um ex-colega meu: ambos nos licenciámos
em Física na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa,
penso que com 2 anos de intervalo, pelo que eu já conhecia um pouco
o João.
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Confluências
- Quanto tempo demorou a traduzi-la?. |
Paulo Teixeira -
Em Julho ou Agosto enviaram-me as primeiras provas (o livro ainda não
tinha saído, nem sequer em inglês) e em Setembro a versão
«definitiva» para começar a trabalhar. Terminei em
princípios de Março de 2003.
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Confluências
- Foi galardoado com o Prémio
de Tradução Científica e Técnica. Esperava
receber este Prémio?
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Paulo Teixeira -
Bem, eu tinha recebido uma Menção Honrosa, em 2003,
pela tradução de O Universo numa Casca
de Noz, de Stephen Hawking, de modo que acalentava a esperança
de desta vez conseguir o 1.º lugar...
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Confluências
- O autor desta obra, Mais
Rápido que a Luz, é João Magueijo, que é
português. Achou que havia alguma diferença na tradução
de uma obra, escrita em inglês por alguém cuja língua
materna é o português?
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Paulo Teixeira - Não,
não notei diferença alguma. O João escreve um inglês
lindo. A grande vantagem foi, neste caso, o autor poder rever a tradução.
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Confluências
- Que outros problemas, ao nível da tradução,
lhe levantou esta obra? |
Paulo Teixeira - Não
houve grandes problemas com linguagem técnica. Houve alguns (pequenos)
problemas com o tom muito coloquial, roçando o vernacular, que
o João emprega por vezes – e ele recomendou-me expressamente
que gostaria que a tradução, mesmo das passagens porventura
menos bem educadas, fosse o mais fiel possível. Foi uma experiência
nova para mim, uma vez que os textos científicos não costumam
ser tão coloridos.
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Confluências
- Quando escolhe, ou aceita,
propostas de textos para traduzir, selecciona ou aceita apenas os que
se encontram no domínio da sua especialidade?
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Paulo Teixeira - Até
à data, só me propuseram textos no domínio da Física,
quando muito roçando a Matemática. Os textos que eu próprio
selecciono são também neste domínio. Não me
sinto capaz de traduzir noutras áreas. |
Confluências
- No âmbito da sua especialidade (a Física), a necessidade
de encontrar termos equivalentes em língua portuguesa ainda é
muito frequente?
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Paulo Teixeira - Sim, ainda
acontece com alguma frequência.
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Confluências
- Como resolve essas questões? Costuma recorrer a textos escritos
noutras línguas ou noutras normas, nomeadamente na norma brasileira?
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Paulo Teixeira - Normalmente
pergunto a colegas, ou recorro a traduções mais antigas
para ver como foram traduzidos tal e tal termos. Recorrer a traduções
brasileiras é um pouco arriscado: muitas não são
muito boas e, além disso, há algumas diferenças de
terminologia técnica entre o Brasil e Portugal. Pode acontecer,
por vezes que um determinado termo não tenha mesmo tradução
corrente, isto é, que a comunidade científica e técnica
utilize o termo estrangeiro (normalmente inglês). Nesses casos,
parece-me preferível conservar o termo original em vez de introduzir
um equivalente que seria artificial, no sentido de não reflectir
a prática quotidiana da comunidade. São disto exemplo as
designações dos quarks em Física
das Partículas.
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Confluências
- Quando traduz, usa metodologias diferentes segundo o(s) público(s)
a quem se destinam os textos traduzidos, nomeadamente os especialistas,
os estudantes ou o público em geral?
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Paulo Teixeira - Não,
a minha metodologia tem sido sempre a mesma. Sou um tradutor completamente
artesanal: tenho uns dicionários em casa, pego no livro, sento-me
em frente ao computador e começo a trabalhar. Quando é preciso
recorro a colegas, ocasionalmente à Internet.
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Confluências
- Qual a sua opinião sobre as traduções que se fazem
em Portugal, na sua área de especialização?
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Paulo Teixeira -
Felizmente há cada vez mais. Quanto à qualidade, há-as
boas e menos boas. Os editores saberão responder melhor do que
eu se há ou não dificuldade em encontrar bons tradutores.
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Confluências
- Como surgiu a tradução no seu percurso
profissional?
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Paulo Teixeira -
Quando ainda era estudante de licenciatura, um colega (Jorge Buescu, hoje
professor de Matemática no Instituto Superior Técnico e
bem conhecido nos círculos de divulgação científica)
veio perguntar-me se queria fazer a tradução de um capítulo
de um livro para a Gradiva. Estava-se em fins de 1986, e o livro chamava-se
Planeta Terra: acompanhava a série
de televisão do mesmo nome. Fiz o trabalho, a Gradiva gostou e
confiou-me um livro inteiro: Superforça,
de Paul Davies. Traduzi ainda mais um livro, a Simetria
Perfeita, de Heinz Pagels, em colaboração com outro
colega (Henrique Leitão, actualmente historiador das ciências
e especialista em Pedro Nunes). Depois fui para o Reino Unido fazer o
doutoramento e acabei por ficar dez anos fora. Quando regressei, entrei
em contacto com a Gradiva e eles deram-me O Universo
numa Casca de Noz, de Stephen Hawking, para traduzir. Seguiu-se
o livro de João Magueijo, cuja história já contei.
A tradução é, portanto, algo que faço em paralelo
com a minha actividade principal de docente e investigador.
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Confluências -
Curiosamente, os prémios de tradução científica
e técnica costumam ser atribuídos a especialistas de diferentes
áreas que têm a tradução como segunda actividade.
Concorda que só este tipo de especialistas são bons tradutores
nas áreas técnicas e científicas?
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Paulo Teixeira
- Não necessariamente. Mas um não especialista precisaria
de estar em contacto estreito com especialistas, para evitar erros óbvios
– palavras cujo sentido num contexto técnico é diferente
do que têm na linguagem de todos os dias, como por exemplo «tenacidade».
Se uma tradução científica ou técnica for
feita por um não especialista, será indispensável
que a mesma seja revista por um especialista. O qual, em princípio,
deveria ter direito a uma parte de qualquer prémio que a tradução
porventura viesse a ganhar...
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Confluências -
Que formação deve ter um tradutor que se queira dedicar
à tradução da Física? Inversamente, pensa
que os especialistas das diferentes áreas, para serem tradutores,
devem ter alguma formação em Tradução?
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Paulo Teixeira
- Um tradutor técnico deve ter formação técnica.
Em particular, para traduzir Física tem de se saber Física,
pelo menos ao nível de uma licenciatura com um forte conteúdo
em Física. Evidentemente, mesmo um especialista nunca sabe tudo
– por isso é importante conhecer o meio científico
e tecnológico e saber a quem se pode recorrer em caso de dificuldades.
Além disso, um tradutor tem de ter muito bons conhecimentos da
língua (e da cultura) da qual está a traduzir, uma vez que
(mesmo em textos científicos) há muitas subtilezas traiçoeiras
e referências culturais que importa não deixar passar ao
lado. Não falo já de conhecimentos da língua para
a qual está a traduzir, uma vez que me parece óbvio que
um tradutor tenha, igualmente, que os possuir. Sim, idealmente os especialistas
em áreas técnicas deveriam também ter alguma formação
em tradução (eu confesso que não tenho): em particular
deveríamos estar mais bem informados acerca dos imensos recursos
de apoio à tradução (informáticos, etc.) que
actualmente existem.
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Confluências -
Quando lê uma tradução, o que é para si mais
importante: a precisão terminológica, a correcção
linguística ou outros aspectos?
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Paulo Teixeira -
Tudo isso. E também que não se note tratar-se de um texto
traduzido: idealmente as frases devem fluir naturalmente, como se nunca
tivessem existido noutra língua. Na minha opinião um texto
deve ser correcto, tanto científica como linguisticamente, mas
também deve ser agradável de ler. Idealmente o trabalho
do tradutor deve ser invisível: para mim, um bom tradutor é
aquele cuja presença passa despercebida.
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Confluências -
Considera que em Portugal há uma política para a tradução
especializada?
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Paulo Teixeira -
Não sei. Mas também não sei se deveria haver uma.
Claramente muitas editoras têm já as suas políticas
de tradução especializada, o que é óptimo,
porque respondem a necessidades reais. Não sei se se ganharia muito
com uma política centralizada. |
Confluências -
Um comentário final ao seu trabalho e ao Prémio que
recebeu.
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Paulo Teixeira -
Evidentemente gostei muito de ter recebido o prémio e de ver o
meu trabalho reconhecido desta maneira. Considero que prémios deste
tipo são sempre um incentivo.
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Confluências -
Muito obrigada pela sua colaboração.
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| * A
entrevista foi realizada por Manuela Paiva, Directora-Adjunta da Confluências:
Revista de Tradução Científica e Técnica.
Endereço para correspondência: manuela.paiva@confluencias.net. |
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